sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O porquê de não conseguir gostar

Porque quando eu era pequena era excluída das brincadeiras simplesmente por ser um viadinho; todos me ignoravam quando eu tentava me aproximar
Porque quando dizia estar triste por não ter amigos sempre me diziam que eu não era interessante, ou legal o suficiente, que a culpa era minha e que eu devia mudar... ninguém nunca me disse que tudo bem ser o que eu era...
Porque quando tinha 12 anos um colega meu, para me ridicularizar na frente dos demais no recreio, tentou abaixar as minhas calcas e introduzir um objeto cilíndro em mim... porque naquele dia tive de chorar em segredo para não ouvir represálias por ser tão afeminado
Porque quando estava na oitava série o meu professor de educação física, um homem casado e de meia idade me traumatizou pelo resto da vida, e nunca consegui ficar com algum homem sem me sentir humilhada ou coagida
Porque minha mãe nunca demonstrou verdadeiramente gostar de mim... nunca quis ouvir sobre o meu dia, nunca me deu colo, nunca disse que eu era bonita ( ou  bonito, visto que na época eu não era uma menina ainda); e ela tinha o poder de me fazer sentir a pessoa mais idiota/carente/chata por eu estranhar aquilo, por me fazer sentir humilhada com só um olhar (e nunca exigi nada dela)
Porque o meu pai nunca me levou para andar de bicicleta; porque nunca disse que me amava... por ter me agredido uma vez que comi uma fatia de pão a mais... pelo tapa que me deu na última vez que nos vimos
Porque a primeira psicóloga que fui (a pessoa que supostamente entende e aceita a todos, que tem formação para ajudar) disse que eu não devia transicionar e que devia cortar os cabelos, quando eu tinha 16 anos, e eu tonta acreditei nela... acreditei que o que eu era ou queria ser, era uma idiotice, algo ridículo... acreditei e por isso perdi uns bons anos da minha vida
Porque notei que as relações são feitas na base da troca, seja dinheiro por amor, beleza por amizade; e inúmeras outras combinações... é sempre necessário ter uma moeda de troca
Porque ficava presa no meu quarto e toda vez que tentava sair tinha de levar uma bronca, mesmo que fosse para ir à padaria, comprar um doce
Porque os gastos, mesmoq ue minha família não fosse pobre, eram controlados de tal forma que até um chiclete de 25 centavos era motivo de discórdia
Porque a vida se tornou uma grande e chata obrigação, já que não me sinto digna de ter qualquer tipo de relação humana, visto que isso seria algo errado... um pecado/blasfêmia eu estar em paz ou ser feliz, ou simplesmente não sofrer
Sinceramente? Não quero gostar de ninguém... não quero ser usada, maltratada, humilhada, diminuída, estuprada, abandonada. Chega de dar poder para as pessoas me destruirem. Não acredito no amor, não acredito nas pessoas e não acredito no futuro. Não estou nessa vida porque quero, e sim  porque sou covarde demias para tentar me matar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Uma facada no estômago

Vou me formar na facul esse ano. Todos os anos o s formandos fazem um vídeo encenando as situações engraçadas durante a faculdade, que é mostrado num telão, numa festa. Hoje descobri que querem fazer piada com o fato de eu ser trans e tirar sarro da minha situação nesse vídeo. Estou muito triste.
Boa parte do meu sofrimento nos últimos anos foi por me preocupar com o que as pessoas pensam. ue Deus me de foças para quebrar esse ciclo, nesse momento em que mais preciso disso... em que mais preciso encontrar paz... e passar por cima dessa dificuldade. Eles não merecem as minhas lágrimas.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Um dos motivos de eu detestar a minha mãe...

Eu admito, não sou boa em perdoar. Tenho a impressão que com certos tipos de pessoa, não adianta você esquecer ou relevar, porque a) elas não merecem; b) elas vão errar de novo e você vai se sentir idiota de ter perdoado.
Minha mãe nunca foi boa com uma coisa que é fundamental para quem tem filhos: responsabilidade. Talvez seja por isso que eu seja tão ligada nas minhas obrigações, deveres, de forma até meio patológica às vezes... ser criada por uma pessoa como ela deixa tantas cicatrizes, que tudo que eu queria era me diferenciar disso, ser exatamente o oposto.
Ela vivia no mundo dela, com suas próprias necessidades e dramas, e se esquecia de coisas básicas, como nos alimentar, ou ir buscar na escola. Claro que nunca se esquecia dos seus compromissos sociais, para deixar a mim e os meus irmãos sendo cuidados por pessoas que não estavam afim. Isso quando não ia puxar o saco da minha avó, tias ou amigas, e nos deixava com um pai em ressaca, super agressivo que me deixava com medo até de respirar perto dele.
Minha mãe nunca ganhou mal, apesar de não sermos ricos, ela era concursada pública na área da saúde, tinha condições de ao menos não deixar faltar comida rs. E não é que ela quisesse que a gente passasse fome, por maldade ou algo assim. É que por alguma razão, aparentemente, ela não tinha faculdades cognitivas mínimas para entender que seres humanos de menos de 10 anos não sabem cozinhar, não fazem fotossíntese e assim, precisam de alguma ajuda no processo tão supérfluo da alimentação.
Esta criatura não tinha grana para pagar uma escola particular ou um curso de inglês ( mesmo que os seus colegas da mesma área o fizessem), mas tinha dinheiro ( ou crédito), para dar 3 mil para o meu pai bêbado desempregado comprar um carro usado, porque assim, nas palavras dela, ele a deixaria em paz ( obs, isso aconteceu umas três vezes, ele sempre vendia a merda do carro e gastava em bebida).
Falando em escola ( estou rancorosa eu sei...), esta anta não sabia nada sobre a minha vida escolar. Ela sabia apenas que eu era a primeira da classe, o que já era o suficiente, porque assim não daria problemas (sim, já que essa era a minha missão fundamental nesse mundo, não dar problema a uma mente tão complexa e inteligente). Ela não precisava, portanto, ir às reuniões, no máximo mandava a empregada. Não sabia o nome dos meus amigos e porque não dizer... sequer se interessava pelo fato de eu apanhar quase que diariamente depois da quinta série, ou o professor física ficar passando a mão em mim e todas essas violências que infelizmente são rotinas para muitas pessoas transexuais.
Quando eu passei no concurso que permitiu eu ter o trabalho que tenho atualmente, ela melhorou um pouco. Na verdade até antes, porque ainda morava na minha cidade natal eu  joguei tudo isso na cara dela, de uma forma bem agressiva, que é o único jeito de ela entender...e ela melhorou uns 10%
O fato é que agora, sabendo que eu estou mal, pensando em suicídio, isolada, ela nem se importa em fazer uma ligação e perguntar se estou bem. O mais triste, é que de toda a minha família, principalmente depois que me assumi transexual, ela é a mais próxima.
Não, não perdôo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Né não?

REGRAS DE OURO DOS HOMENS DA INTERNET 

(pelo menos p/qndo se é trans*) 

1 -Pedirá q vc abra sua webcam após o primeiro "oi", ou antes dele;


2 -Perguntará se vc é ativa ou passiva;

3 -Perguntará se vc é operada;

4 -Se convidará p/ir à sua casa depois da quarta ou quinta frase ou o fará msm q vc nunca o tenha visto pessoalmente;

5 -Exibirá fotos pelado ou do pênis em close e perguntará: "gostou? ";

6 -Dirá que está morrendo de saudade de vc - depois dele próprio ter desaparecido por alguns meses sem explicações - quando não, perguntará por que vc sumiu (lembre-se que o desaparecido é ele) ;

7 -Perguntará se vc faz programas;

8 -Dirá que ñ tem preconceitos com trans* pois ele tbm tem amigos gays e em seguida dirá, achando q está arrasando, q vc é mais bonita que muita mulher;

9 -Começará as conversas com "oi delícia", "oi princeza (sic) ", "oi gostosa", "voçe não vai dar uma chanse pra mim? 

10 -Dirá q vc deve beijar mt bem ou que tem cara de safada após a quinta ou sexta frase 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Como superar uma crise?

Tem aquele ditado que em crise se cresce e concordo que quando passamos por uma situação difícil tendemos a melhorar tanto no sentido de conhecimento quando emocionalmente. Todos nós passamos por crises e vamos sobrevivendo, afinal a vida é feita de altos e baixos mesmo, com perdão do clichê.
Às vezes aquela situação difícil que causa uma crise é algo que vai passar mesmo, independente do que você faça. São coisas que estão mais condicionadas à fatores externos. Um exemplo muito citado por aquelas campanhas "it gets better", que falam que a tão difícil fase escolar, para as crianças/adolescentes glbt, vai acabar e as coisas vão melhorar, e é verdade. A vida dessas pessoas não vai dar ficar maravilhosa quando terminarem os estudos, mas só de não ter de encarar tanto preconceito, poder ficar mais próximos de seus iguais, já é alguma coisa.
Agora a maior parte dos problemas/crises não depende só do tempo passar, embora este ajude muito, e sim de um processo mais ativo digamos assim da pessoa, para bolar uma forma de sair daquela merda. Não é fácil, pois o emocional acaba deturpando um pouco a nossa visão, ainda mais em um quadro de depressão. São os casos em que a pessoa deve, mesmo com tudo indo contra, fazer aquele força contrária para alterar algo em si que está contribuindo ou causando muitas vezes, o problema. Inclusive porque se você não aprende nada com aquilo, mesmo que o tempo de conta de melhorar aquela situação você corre o risco de cair em outra coisa parecida/pior e sem recursos intelectivos/psicológicos (pois não os desenvolveu), para sair fora. Um exemplo, a minha mãe aguentou meu pai durante mais de 20 anos com suas bebedeiras e agressões, empurrando com a barriga e esperando que os outros vissem o sofrimento dela e cuidassem de uma cosia que na verdade era responsabilidade dela: tirar ele de casa. Bom, algumas coisas aconteceram e o cara acabou saindo, mas não porque ela fez algo, ela não teve participação importante nisso. Então, se ela encontrar uma outra pessoa com perfil semelhante ao meu pai, ela pode cair na mesma armadilha, porque não aprendeu nada com isso.Seria diferente de uma mulher que juntou forças e deu um jeito de expulsar o agressor da sua vida, ela dificilmente entraria em algo similar de novo. No caso da minha mãe é como se ela tivesse saído do problema mas o problema não saiu dela.
Isso tudo são pensamentos meus... posso estar enganada é claro. Em algum momento do percurso a minha vida ficou muuuito ruim, afinal, mal consigo sair de casa nas minhas próprias férias, isso não é normal, e acho que é um sintoma do quanto estou "estragada" por assim dizer. Acho que aprendi muita coisa errada e desaprendi as coisas certas, sei lá... O fato é que tudo está uma bagunça, e não sei como fazer para melhorar.
É necessário me reencontrar, saber quem eu sou de verdade. Como escrevi na minha primeira postagem, há alguns meses, não sei mais que tipo de música eu gosto, não sei o que me incomoda o que me agrada, perdi o parâmetro de muitas coisas básicas, fiquei despersonalizada demais.
Uma lista do que precisa ser mudado urgentemente:
-Criar laços: socializar, ter amigos, colegas, vida social...
-Estudar mais: minha auto estima está, bem ou mal, atrelada à isso. Sem contar que preciso estudar para passar no concurso que quero e nesse ritmo isso não vai rolar.
-Terminar a transição.
-Fazer as pazes comigo mesma.